
Noite qualquer, dessas boas pra morrer porque não faria falta alguma, nem você pra vida, nem ela pra você, que ela veio dançando me beijar. Não era beijo doce, era frio.
O quarto estava bagunçado, como sempre, as roupas fora do lugar, o gato em cima do sapato e a bebida na cômoda. Vinho; três dedinhos só.
Tudo cheirava a ferrugem, que é o cheiro que a rotinha tem.
O dia fora uma grande merda nenhuma. Boa definição essa, sem sentido algum. Pois foi assim, em mais um dia que parecia com certeza ser precedido de outro e ser seguido por outro, que ela dançou comigo. A dança nem era quente, era ensaiada. Não me pergunte como.
Pronto: no fim da tarde, dentro do ônibus quase vazio (que carregava uma luz alaranjada), pensei que nada mais fazia sentido, a não ser a luz, essa luz de fim de dia, fim de um ciclo, fim. Pensei que não me importava com ninguém mais, não queria sentir nada mais, cansei. Ainda jovem, alguns generosos conhecidos podem dizer, mas é essa verdade a que deve ser dita, para que não lamentem - e lamentariam ainda assim?
Outra verdade é que dançamos, nem muito nem pouco, dançamos. E teve o beijo frio que fez meu corpo cair vazio; talvez limpo e livre dessa alma pesada, enfim.
Palavras? Não me importam. O beijo foi o melhor.
